24 agosto 2012

DAVID CRONENBERG E PAUL GIAMATTI FALA SOBRE TRABALHAR COM ROBERT EM COSMÓPOLIS!


DAVID CRONENBERG

Do “Oregon Live”

Dada a atmosfera pesada de Nova York no filme, é um elemento surpresa que Cronenberg tenha escolhido o ator britânico Robert Pattinson para o papel principal. Pattison é mais conhecido, é claro, pela relativa leve exigência dos filmes Crepúsculo, que revelam pouco do material pesado, interno e intelectual, que Cosmópolis exige. Após declarar que “escalar é uma arte obscura: não há livro de regras para orientá-lo”, Cronenberg explica que ele assistiu alguns dos trabalhos de Pattinson não-Crepúsculo, especialmente Poucas Cinzas, no qual ele interpretou o jovem Salvador Dalí, e sentiu que tinha encontrado o seu homem. Ainda assim, ele admite que, em todos esses assuntos, há um salto de fé.

“É pressentir que ele pode fazer o papel”, diz ele. “Porque aqui, você está pedindo pra ele fazer coisas que ele não fez antes. Mas eu estava convencido de que, no momento em que eu tinha feito todo o meu trabalho, que ele era o cara certo. Eu sabia que ele era bom, e ele me surpreendeu em quão bom ele foi”.

Do “IFC”

IFC: Você mencionou querer ver grandes atores falando o diálogo, e o filme é cheio delas. Mas estou curioso sobre Robert Pattinson, que ainda é um ator jovem e não tem experiência tanto como parte do elenco de apoio, mas tem seguidores massivos. Quando você tem um projeto como este, você faz mais ligações do roteiro para molda-lo com seus pontos fortes, ou trabalha com ele para combinar suas habilidades e talentos com o material?
Cronenberg: Para todos os atores, você realmente não sabe o que você vai conseguir. Com exceção de algumas audições que alguns atores fizeram para certos papéis, eu nunca ouvi o diálogo falado até que estávamos filmando. Com Rob em particular, eu nunca ouvi o diálogo falado até que estávamos filmando. Você vai filmar com a confiança que você tem o cara certo, mas você não sabe exatamente o que vai acontecer. Há uma coisa muito orgânica que se passa em Cosmópolis que é muito espontâneo, porque até Robert sentado na limusine com o ator real na frente dele, com quem ele está interpretando a cena – e existem tantos atores diferentes que entram e saem daquela limusine – ele não sabe como ele vai reagir, porque ele não está atuando no vácuo. Ele está reagindo ao outro ator… Por exemplo, a primeira cena que filmamos foi na limusine com Jay Baruchel. Rob ficou chocado pela forma como Jay estava interpretando, porque ele estava interpretando com tanta emoção e vulnerabilidade, e Rob não estava esperando por isso. Então ele teve que reagir a isso. Essa é a emoção do filme: você misturar todas essas coisas que são potentes e boas, mas você realmente não sabe o que você vai conseguir com isso.

IFC: É uma espécie de cozimento…
Cronenberg: [Risos] Sim, é. É como cozinhar uma refeição que você nunca fez antes. 

(…)

**SPOILERS**

IFC: Em matéria de mudar a forma do material de origem, eu vou entrar em território spoiler aqui por um momento e perguntar sobre o final do filme e como ele difere do livro. O filme deixa as coisas mais incertas do que o livro, isso parece… 
Cronenberg: É difícil discutir sem spoilers, mas teria sido muito fácil colocar um tiro na trilha sonora e você saberia que Eric foi assassinado. E no livro, você sabe que ele está morto, ou pelo menos se você acredita em Benno, ele foi assassinado – mas isso é a coisa, porque Benno não é exatamente um narrador confiável. No livro há ainda alguma margem para incerteza quanto ao destino de Eric, mas como estávamos filmando a última cena, eu amei esses dois caras que estavam congelados no último momento – quase congelado em uma eternidade de incerteza. Eles tem uma ligação. Eles estão presos neste tipo de momento atípico. Eu pensei que o momento deveria ser eterno. 

IFC: Eu posso imaginar você indo como, “e vai direto… lá!”
Cronenberg: [Risos] Basicamente, sim. Então, foi mais desse jeito do que uma forma mais dramática. Não era como, “Oh, eu não posso suportar ter esse personagem morto”, ou “os fãs de Rob não vão gostar se eu atirar Robert”, ou qualquer coisa assim. Não estava me preocupando com essas coisas. Foi muito espontâneo. Como eu mencionei, nós poderíamos facilmente ter deixado claro que ele foi morto, cortando para o escuro, com o som de um tiro.

**FIM DE SPOILERS**


PAUL GIAMATTI

Do “Indiewire”

Como você lida com o diálogo detalhado e ele em si? Você essencialmente fala com discurso prolixo e estendido, em sua cena ao lado de Robert Pattinson.
Bem, quero dizer, foi um diálogo agradável pra dizer. É excêntrico, e ele definitivamente tem um ritmo. Foi um pouco de truque pra sentir o seu modo nisso. Meu personagem, ele tem uma vida de fantasia muito elaborada. Ele tem como escape, uma história muito intensa em sua cabeça sobre o outro, sobre si mesmo e esta relação. Então eu acho que uma das maneiras que me ajudaram a sentir como se eu pudesse trazer o diálogo para a vida, era ter certeza de que eu estava construindo esta elaborada e emotiva vida por trás de todas essas palavras, para que então eu pudesse conectar todos eles. E era estranho, os saltos e lógica entre os discursos – todos em que subitamente alguém iria começar a falar sobre algo que parece completamente alheio. Então eu tive que fazer todas essas conexões, e uma vez eu pude emocionalmente descobrir o que estava acontecendo, as palavras vieram muito facilmente. 

“Algo sobre o seu estilo como um cineasta parece se encaixar bem com o livro”. É o diálogo estranho, que parece que se propaga. Eu não sei se é muito complexo e intelectual, mas na verdade trata de uma vida emocional muito bem, pelo menos para mim. E eu acho que esse cara é, como você diz, em alguns aspectos, o mais simpático, porque ele é o mais visivelmente e emocionalmente envolvido. 

Foi difícil atuar com Pattinson, cujo personagem é desprovido de qualquer emoção? Ou será que foi seu combustível para a cena?
É como uma sessão de terapia em que você se mantém alternando entre, quem é o terapeuta e quem é o paciente? E isso, sim, algo em sua passividade absolutamente trouxe um monte de vida para mim. 

Quanto tempo você e Rob filmaram a cena?
Eu acho que nos levou cerca de dois dias e meio, talvez? Você sabe, é uma cena longa. Eu acho que foi cerca de 20 páginas, o que é muito para uma única cena. Então tinham previsto talvez quatro ou cinco dias, mas apenas nos levou dois e meio.


Do “Film School Rejects”

O tom de Cosmópolis é esse muito inexpressivo e excêntrico. Como Cronenberg descreve o tom para você?
Você sabe, ele não o fez, em várias maneiras. Eu acho que ele confiava que teríamos um senso disso. Mesmo que o diálogo seja muito estranho, você sabe qual é sua sensibilidade, então você meio que sabe o que é o tom. Eu fiz algo que normalmente não faço em um filme… Eu só venho no final, depois que filmaram a maior parte do filme, e eu perguntei a David se eu poderia assistir o filme, porque eu queria ver o tom do filme e como o Rob parecia, como falava e se movia. Eu senti que era algo que eu precisava ver, porque eu estou interpretando um cara que sempre tem uma fantasia dele em sua cabeça. Eu pedi para ver a filmagem para exatamente o que você acabou de dizer: é um tom estranho. Eu queria apenas assistir alguns deles, para que eu pudesse ver como eu poderia caber nele e, em alguns aspectos, desviar dele. 

(…) 

Isso é similar a alguns de seus filmes anteriores, em como às vezes a história pode ser abstrata. Quando você começa um roteiro denso e cheio de simbolismo, você tenta aplicar sentido a tudo ou você só vai com ele?
Neste exemplo, com este roteiro, eu li o roteiro todo, muitas e muitas vezes. Eu costumo fazer isso de qualquer maneira, mas, nesse, senti essencial para mim ler um monte de vezes. Não era apenas me concentrar no meu material, parcialmente, porque era muito interessante. Eu só tive um bom tempo lendo e pensando sobre isso. Como você disse, há uma coisa no tom, e eu precisava ter senso disso em minha cabeça. Eu também sinto que o personagem tem uma consciência real do personagem de Rob, então eu senti que eu precisava conhecer o personagem do Rob. Certamente, em minhas cenas, tudo tinha que ser cristalino para mim [risos].

Post: Mel

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